a GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI (2009)










Jean Mafra, Peter Gosweiler e Rodrigo Daca são compositores e músicos que vivem na mesma cidade — Florianópolis, que fazem trabalhos distintos e que justamente por causa das diferenças entre seus fazeres artísticos resolvem se unir em um projeto/show. É assim que nasce A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI uma espetáculo que são três, e com três artistas que fazem a nova música de Floripa, uma cidade que são várias... 
A idéia se dá depois de algumas conversas entre os amigos, que costumam se encontrar na guitarland — loja de instrumentos na qual Daca trabalha, e que é ponto de encontro entre os mais diferentes músicos da Ilha. A proposta é simples unir suas experiências, expectativas e públicos num show que será apresentado em três datas, ao longo de três meses e com três formações distintas de repertório e de banda(s). Na primeira apresentação, que acontece agora no dia 13 de maio, Peter Gosweiler — acompanhado de Bruno Barbi e Blue (Koll Witz) — mais Daca e Os Faixa Preta — o seleto grupo que tem Eduardo XuXu, Leonardo Portalupi e Marcio R. em sua formação — dividem o palco tendo Jean Mafra como convidado. Nas noites seguintes, em junho e julho, os shows se dão com Mafra e os Garotos de Aluguel — Marco Antônio Jaguarito e Isaac Varzim — se alternando com os primeiros. O interessante é que todos tocam com todos e em cada noite com repertórios diferentes (e os compositores ainda se unem a alguns dos mais importantes nomes da cena local — do rock, do pop, do eletrônico, do experimental). Mais ainda: a cada apresentação haverá uma pequena homenagem a um desses artistas que hoje fazem a música de Florianópolis — XuXu, Varzim e Koll Witz são os escolhidos. 
O conceito do espetáculo nasce da idéia do encontro entre estranhos, como num acidente de trânsito. A partir do choque vem o diálogo, entre os escombros de suas experiências, entre os restos, os fragmentos, da música de uma cidade em constante reformulação (Florianópolis é a capital brasileira que mais cresce e mais desordenadamente hoje em nosso país). É nesse cenário que Rodrigo Daca, Jean Mafra e Peter Gosweiler formulam A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI
Por fim, a experiência deve render um outro show, que une o melhor destas três apresentações em uma só, e que visitará o Rio de Janeiro no segundo semestre. 

Rodrigo Daca nasceu em Florianópolis, é fã de Beatles, blues e soul americano das décadas de 50 e 60.  
Começa tocando bateria em 1991, mas em seguida passa a cantar. Após participar de algumas bandas, em 2000 lança o disco Canções de Amor ao Pé do Ouvido (12 faixas, pela Migué Records, selo local que lançou Pipodélica, Os Ambervisions e Os Jerusos — da qual Daca é compositor e cantor até 2002, quando funda a Fonomotor). Em 2004, junta algumas composições e grava Volume Um, lançado 3 anos depois e que faz parte de uma trilogia que contará com mais dois
EPs, cada um contando um pouco das influências do artista.
Ainda no primeiro semestre de 2009, Rodrigo Daca lança o (aguardado) segundo EP, Mundo Novo. 
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Peter Gossweiler é gaúcho e invadiu a música de Florianópolis a cerca de três anos como um baterista um pouco diferente. Apaixonado pelo estilo Música Livre, um misto de música experimental, improvisada, incidental, conceitual. É possível definir seu trabalho como arte sonora. 
Ainda no Rio Grande do Sul participou de algumas bandas de Hard-Core e Metal. Já na Ilha funda o grupo Colorir, que se apresenta em Festivais na China, Taiwan, Reino Unido, Estados Unidos e Bulgária. Com apoio do Ministério da Cultura brasileiro, Peter foi uma das atrações do Fukuoka Extreme Festival no Japão. Em Florianópolis organiza o Festival Musica Livre que está na sua 16a. edição e que faz circular, assim, novas informações, articulando mudanças culturais e formando criadores de opinião na nova ordem musical da cidade.
Recentemente, é convidado pela UNESCO para, em setembro próximo, residir 1 mês em São Franscisco (CA - USA) na Stanford University no Djerassi Resident Artist Program.
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Jean Mafra é paraense e vive em Florianópolis desde os 15 anos. Participa de algumas bandas em fins dos anos 90, mas é em 2001, após vencer o 2° Festival de música do SESC com Compondo, que passa a se dedicar a música.
Em 2004 cria a Samambaia Sound Club — da qual ainda faz parte e que no momento prepara novo disco — e o show Para Poucos que, nos anos seguintes, junto com sua atuação como contador de histórias (com espetáculo Cabra Cabrez e Outras Histórias), o leva a Mostra Cauiá de Teatro, Dança e Música (interior do Paraná) e a Mostra SESC Cariri de Cultura (Ceará). Em 2007 se apresenta ao lado de Chico Saraiva, Pedra Branca e outros no primeiro Panorama SESC de Música. Em 2008, além de estrear novo show (Para machucar seu coração) e compor a trilha da peça carioca Onde você estava quando eu acordei? (com direção e texto de Sidnei Cruz), lança seu primeiro disco solo, Só ou pare de não fazer sentido ou (ainda) para poucos





A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI 

segunda etapa
 
Há cerca de um mês Jean Mafra, Peter Gosweiler e Rodrigo Daca se juntaram em um show que unia um pouco da experiência de cada um. A idéia era compartilhar diferenças e encontrar semelhanças em seus trabalhos. E foi exatamente isso que aconteceu, quando os três, ao lado d’Os Faixa Preta (grupo formado pelos ex-Pipodéilica, Eduardo XuXu e Marcio Leonardo, mais o baterista Marcio R. e que acompanha Daca), mais Blue (performer do duo Koll Witz) e Bruno Barbi (figura importante da cena rock da capital — ex-The Dolls, atual All About a Drink), encararam o público que adentrou o Teatro Sesc Prainha, montado em forma de Arena. O estranhamento inicial de alguns já era previsível, e era esperado, inclusive, pois faz parte da proposta do projeto/show A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI — um espetáculo que são três, e com três artistas que fazem a nova música de Floripa, uma cidade que são várias... 

A idéia surgiu das conversas entre os amigos, que costumam se encontrar na Guitarland — loja de instrumentos na qual Daca trabalha, e que é ponto de encontro entre os mais diferentes músicos da Ilha. A proposta, aparentemente simples: unir suas experiências, expectativas e públicos num show, se mostrou mais complexa na hora de sua realização, algo que, ainda assim, deu mais motivação ao trio, que após a primeira apresentação, se prepara para, com algumas arestas já aparadas, fazer dessa segunda etapa algo ainda melhor. No dia 17 de junho se apresentam Daca e Os Faixa Preta mais Jean Mafra & Os Garotos de Aluguel (banda formada por Isaac Varzim, Superpose e Florian Bill, e Marco Antônio Jaguarito, Samambaia Sound Club), além de Peter Gosweiler e dos convidado Rafael Calegari e Emília Carmona. É preciso frisar que a cada uma das três noites novas formações e repertórios e combinações serão apresentadas aos presentes — que verão verão alguns dos mais importantes nomes da cena local (do rock, do pop, do eletrônico, do experimental...). E se Eduardo XuXu foi o primeiro compositor contemporâneo homenageado, essa será a vez de Isaac Varzim. 

Cabe dizer mais, que se o conceito do espetáculo nasceu da idéia do encontro entre estranhos, como num acidente de trânsito, a ela foi agregada uma outra, a de permanente construção — o show é dirigido, por Jean Mafra, na frente do público. E se a partir do(s) choque(s) vem o(s) diálogo(s), entre os escombros de suas experiências, entre os restos, os fragmentos, da música de uma cidade em constante reformulação, (re)construção (Florianópolis é a capital brasileira que mais cresce e mais desordenadamente hoje em nosso país). É nesse cenário que Rodrigo Daca, Jean Mafra e Peter Gosweiler gritam A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI













Eles ainda vivem na mesma cidade por Antonio Rossa em seu blog, o http://transitoriamente.wordpress.com/ em  (20/03/2010).


Fazer, realizar, compartilhar, pensar além, deveriam ser premissas de todos aqueles que se dispõem a levantar de suas camas e seguir a vida adiante além do próprio quarto escuro.

Se o sistema é duro, esmorecer a própria alma pode deixar as coisas ainda piores.

Alguns guerreiros pensam de modo diferente, e então fazem coisas diferentes, que produzem resultados diferentes.

Parece simples? Mas é!

Mudar o mundo não é mudar o mundo todo. Mudar o mundo é mudar o seu próprio mundo todo, e por conseqüência o mundo de quem está a sua volta. Sucessivamente isso leva novas idéias avante, e a “contaminação” da inteligência favorece e estimula que mais pessoas venham a fazer as suas próprias coisas, a levar as suas ideias adiante.

Caros amigos da Geração Y. Afinal, não fomos nós criados para mudar o mundo? Não seríamos nós o Brasil do futuro? Então precisamos sê-lo, ora bolas.

No ano passado, Jean Mafra organizou um evento que se estendeu por três edições (realizadas do SESC Prainha / Floripa) e teve como objetivo principal juntar diferentes estilos dentro de um desfecho inusitado e quase improvável. Na época eles definiram tal encontro como uma espécie de “acidente de trânsito”, em analogia ao tom caótico e factual da proposta.




Nasceu então “A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI”, em parceria com os músicos Peter Gossweiler e Rodrigo Daca, e suas respectivas bandas, além de outros convidados.

O experimentalismo de Gossweiler, o rock de Daca & Os Faixa Preta e o pop de Mafra & Os Garotos de Aluguel se fundiram em idiossincráticas performances, que em breve sairá em um filme dirigido pelo próprio Mafra.

A poetisa Ryana Gabech; Isaac Varzim e Marco Antonio “Jaguarito” (Garotos de Aluguel); Koll Witz (Blue) e Bruno Barbi (Gossweiler Band); Eduardo Xuxu, Márcio Leonardo e Márcio RS (Os Faixa Preta), Gabriel Orlandi, Manolo K, Caio Muniz e Marco Lorenzo formaram as bandas desses encontros. Destes, Varzim, Blue e Xuxu foram homenageados, cada um em uma das edições.  



Abaixo você confere uma entrevista com Daca e Mafra, e ainda uma série de vídeos retirados do filme a ser lançado futuramente, e que foi filmado e editado por Alexandre Sucupira.

O mundo não para de girar, nós é que não podemos parar no mundo que não para.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

Fotografia e Arte: Antonio Rossa/Transitoriamente



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ENTREVISTA

Ps.: Vale lembrar que Mafra escreve com as letras minúsculas.  



Transitoriamente (TM) – Vejo uma parte dos artistas, em Florianópolis, muito mais preocupados em satisfazer expectativas estéticas do que propor alternativas? Algo do tipo: “Você espera isso de mim, então eu vou lá e faço exatamente isso”. Qual foi a proposta e onde o “A gente…” se diferenciou?

Mafra - a proposta do a GENTE vive na mesma CIDADE… é deslocar o olhar acomodado. simples. se ele se “diferenciou”, acho que foi justamente por isso. e digo no presente porque ainda pretendo desdobrar o projeto em novas investidas. essa é a idéia para depois que o filme ficar pronto (e espero que fique até maio). 

Daca - Eu como compositor, componho pra mim. Se pra mim soa bem, agrada-me, e isso falo de melodia, harmonia juntamente com as palavras, está tudo certo. Não vou agradar todo mundo e isso é fato. A proposta do “A Gente…” sempre foi misturar os nossos sons que são bem diferentes e acredito que conseguimos fazer o público conhecer as três vertentes. Isso nos diferencia de outros projetos que foram feitos. Dou-me por satisfeito em participar e ver que as pessoas só precisam ser estimuladas para deixar o preconceito de lado.



TM – No “A gente…” é possível escutar o pop, o rock, o experimental e certos traços de MPB. Vocês ainda se prendem a rótulos?

Daca - Como eu disse, se a melodia final me agrada, eu deixo fluir. Tento manter uma unidade junto ao produtor que trabalha ou trabalhou comigo, pra não ficar uma salada. Mas daí a me prender à um estilo, rótulo ou tendência, dá muito trabalho e não vai mostrar quem eu realmente sou.

Mafra - não. acho que não. ao menos não sinto isso em relação aos envolvidos nos shows… quem se prende a rótulos, às vezes, é quem precisa “vender música”, não?!?



 TM – O estado de SC ainda não conseguiu alçar um representante “real” para a sua música atual, algo que já aconteceu com Expresso e Dazaranha em outros tempos. Não estaríamos nós, hoje, nas mãos de especuladores da arte vestidos com roupas da “moda” e com atitudes adolescentes tardias?

Daca - Entendi, tipo o Green Day, como rebeldes de 40 anos…rs…Mas hoje acho que ninguém vai me representar. Até porque eu sou muito chato pra gostar uma coisa que todos aprovam, fora as exceções clássicas como Beatles e Dylan e que não são tão intocáveis assim. E o fato de todos gostarem não diz pra mim que seja bom. Quanto à representar o Estado de SC, daí sim é outra coisa. O Estado é o povo. E  convenhamos, o gosto do povo é altamente manipulável pela mídia de massa que não questiona, simplesmente aceita. Por isso reitero: banda nenhuma me representará.

Mafra - acho que é equivocado querer comparar um cenário musical tão plural e fragmentado quanto o de hoje com aquele que essas bandas citadas possuíam há algumas décadas atrás. nesse sentido, temos vários outros representantes menores, que atingem públicos diferentes e isso, de certo modo, é muito saudável pois descentraliza os holofotes. por exemplo, a importância de um blog como o transitoriamente é justamente de lançar luz sobre aqueles artistas que não estão na grande mídia e de dialogar com eles e seus (pequenos) públicos. mudou a mídia, mudou o público, mudou a música, mudou a maneira dela atingir as pessoas, etc… ao artista interessa alcançar mais ouvintes/leitores/audiências, mas isso dialogar com menos interlocutores, não diminui a representatividade da fala de ninguém. até porque, de certo modo, boa parte daqueles que falam para o grande público não tem nada a dizer (ou repetem desde sempre o já dito). por isso, penso, que justamente por termos um mundo mais fragmentado e de possibilidades midiáticas diferentes, temos mais chances de fugir das “mãos de especuladores da arte vestidos com roupas da ‘moda”"… o que precisamos é levar internet 2.0 pra quem não tem!



TM – A música virou produto fácil, as tecnologias esmagaram o mito ou foram os músicos que se tornaram previsíveis?

Mafra - não acho que os músicos se tornaram previsíveis. consigo listar muitos artistas criativos que hoje constroem seus trabalhos. talvez essas figuras não estejam recebendo a atenção que merecem… talvez, mas isso só o tempo dirá. falar em mitos é complicado, pois mitos não são tão importantes hoje, no meu entender, quanto aqueles que, com pouquíssima estrutura se desdobram como compositores, músicos, arranjadores, produtores, engenheiros de som, djs, ativistas, vendedores, etc. e não esqueçamos que aqui, no terceiro mundo, o buraco ainda é mais embaixo (ainda)… em santa catarina, então, nem se fala…

Daca - Que virou produto fácil, sim. Mas o mito morreu faz tempo. O problema todo pra mim, é que os “artistas” de hoje esperam que aconteça com eles o que ocorreu há 60 anos atrás. São outros tempos. Eu brinco com o lance de explodir, mas no fundo todo mundo acha que vai e eu continuo falando: Tu vai explodir, cara. Vai vir um caçador de talentos que descobriu onde tu mora, através do Google Earth, e tu vai explodir… hahaha…



TM – Afinal de contas, “panelas” ajudam ou atrapalham? Aliás, “panelas” não seriam o “sub do sub” de um processo associativo moderno e em falta por essas bandas?

Daca - Depende da panela. Se eu estiver nela, ela me ajudará. Isso só vai acontecer, se eu tiver algo à oferecer à ela, porque nada é de graça nessa vida. Eu já estou na música há tanto tempo e já vi tanta coisa como esses movimentos de “união das bandas e músicos” ou “associações de artistas” que nunca dão em absolutamente nada, que prefiro ficar por fora e fazer a minha música, lançar quando quero e posso e a única pressão que sofro é de mim mesmo. Outro dia alguém disse: “Vou lutar por NOSSOS direitos!”. Tá bom.

Mafra - “panelas”? sei lá… alguém, que não tenha sido contemplado com o a GENTE vive na mesma CIDADE, pode dizer que somos uma panela, o que é uma bobagem, mas que também pode conter alguma verdade. a questão é, hoje em dia os “coletivos” são um dos mais importantes meios de sobrevivência para artistas das mais diferentes áreas, nesse sentido, viva as panelas (por isso penso que mesmo que não esteja tão em falta por essas bandas, as panelas precisam cozinhar mais feijão para a cadeia produtiva da música de sc!).



TM – Não está faltando um pouco de auto-ironia na música pop catarinense, salvo alguns “Repolhos” da vida?

Daca - Acho que a ironia e o sarcasmo são elementos que te fazem pensar. Acho Repolho sensacional. Eu tenho isso na minha música, mas não é auto-ironia, é falando do padrão estético da mulher do Reino Unido em Beleza Inglesa (Volume Um). É a minha maneira de ver. A Samambaia tinha bastante isso e o Jean tem também.

Mafra - não sei. talvez sim… no meu entender, falta a todos mais tempo para ouvir o outro. são tantos trabalhos, tantos discos, tantas bandas… no meu caso, em particular, acho que há auto ironia até em demasia (basta ouvir meu disco, só ou pare de não fazer sentido, com um bucadinho de atenção, para concordar comigo). mas não sei sou o sujeito mais apropriado para avaliar o cenário com esse distanciamento (até porque não tenho acompanhado tanta coisa daqui nos últimos tempos).

TM – O “A gente..” continuará?

Mafra – em principio sim. os planos são muitos, mas primeiro é preciso finalizar o filme. depois disso as possibilidades serão pensadas conjuntamente. o grande empecilho da empreitada é articular tanta gente… mas vontade para isso há.

Daca – Eu adorei participar e espero poder ajudar para o projeto ir adiante.